A mãe do Martim estava preocupada. O garoto, com três aninhos apenas, esgatanhava com frequência o couro cabeludo que ficava assim, cheio de impigens. Alguém, entendido e experiente, recomendou que lhe deitassem nas feridas o suco da raiz de abrótea.
- De facto, a abrótea (que também é nome de peixe) tem essa utilidade e há pessoas que se dão muito bem com ela - respondi, quando a jovem mãe me indagou.
Abrótea é a designação comum de várias plantas da família das liliáceas que pertencem ao género “Asphodelus”. As mais conhecidas são a “Asphodelus aestivus”, a “Asphodelus albus” e a “Asphodelus ramosus”. Esta, talvez a mais vulgar, é a que vamos pormenorizar, por se encontrar frequentemente na nossa região, de clima atlântico-mediterrânico. Não podemos, todavia, deixar de mencionar a variedade endémica “Asphodelus lusitanicus” e a “Asphodelus bento-rainhae”, espécie quase em extinção, que surge na Cova da Beira, como bem explica o fitoterapeuta e meu caro amigo, Dr. João Ribeiro Nunes, no seu tratado de “Medicina Popular”.
A abrótea encontra-se com frequência nos montados e charnecas incultas, onde parece competir com a cebola albarrã. Antes da floração, as duas plantas são quase semelhantes. A abrótea possui também folhas compridas de verde-escuro, mas muito mais estreitas. É planta robusta e perene com raiz fasciculada, engrossada por tubérculos ovóides e oblongos de 3 cm de comprimento e folhas planas, lineares e basais. Floresce na Primavera, formando ramos, dispostos em panículas, que chegam a atingir 90 cm de altura, com pequenas flores brancas providas de filetes castanhos.
Julga-se que as abróteas são originárias da região mediterrânica, mas actualmente estão espalhadas pelo mundo, sendo cultivadas, quase sempre, como espécies ornamentais. Os gregos antigos costumavam plantá-las junto dos túmulos, pois acreditavam que serviam de alimento aos falecidos. Plínio e outros clássicos mencionam os tubérculos da abrótea como comestíveis, mas, mais tarde, detectou-se neles uma substância tóxica chamada asfodelina, pelo que não convém usá-los na alimentação. Aliás, uma das melhores formas de verificar se uma planta é tóxica é observar o comportamento do gado. Se ele não lhe toca, é porque a planta não é recomendável. No entanto, para aplicar externamente em feridas e lesões da pele, esta herbácea é das mais eficazes.
Medicinalmente diz-se que a abrótea é anti-espasmódica, diurética e emenagoga.
Aponta-se ainda outro uso para a abrótea: a preparação de um grude ou cola muito forte, a partir do pó dos tubérculos amassado em água fria, formando uma pasta amarelada. Era utilizada antigamente pelos sapateiros e encadernadores.
Hoje em dia, poucos fitoterapeutas mencionam a abrótea nos seus compêndios. Exceptua-se o Dr. João Ribeiro Nunes que refere a utilização dos rizomas cortados às rodelas, ou o respectivo suco para friccionar na pele, a fim de activar a cicatrização no tratamento de eczemas, impigens e ulcerações das mucosas. Praticamente o mesmo é dito pelo Dr. Oliveira Feijão na “Medicina pelas Plantas” e pelo Dr. Lyon de Castro na sua obra “Medicina Vegetal”.
Miguel Boieiro

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